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19 dezembro 2011

Bento XVI aos encarcerados: "Os presos são pessoas humanas que merecem ser tratadas como respeito e dignidade"

O Papa Bento XVI, neste último domingo de Advento, deixou nesta manhã o Vaticano para realizar uma visita ao novo Complexo da Penitenciária de Rebibbia, na periferia de Roma. Na estrutura de detenção, o encontro com os encarcerados teve lugar na Igreja do Pai Nosso. Nesta ocasião, o Papa respondeu algumas perguntas dos detentos e na conclusão abençoou uma árvore plantada diante da igreja como recordação da visita. Cerca de 300 pessoas estiveram presentes no encontro.

Um evento muito esperado pelos detentos e pelos funcionários do cárcere, levando em consideração que a vida dentro dos institutos penais na Itália piorou sensivelmente nos últimos anos por causa da superlotação, da falta de funcionários, e da excessiva presença de estrangeiros e de pessoas provenientes das camadas mais baixas da sociedade, e do corte de verbas destinadas à gestão das estruturas penitenciárias.

No seu discurso aos presos do Papa antes de tudo falou da sua alegria e emoção em visitar os detentos, visita que se realiza a poucos dias do Natal.

“Estava na prisão e vieste me visitar” (Mt 25,36). As palavras do juízo final, narradas pelo evangelista Mateus, exprimem em plenitude o sentido da minha visita de hoje entre vocês. Portanto, onde se encontra um faminto, um estrangeiro, um doente, um encarcerado, ali se encontra Cristo mesmo que espera a nossa visita e a nossa ajuda. Essa é a razão principal que me deixa feliz em estar aqui, para rezar, dialogar e escutar”.

O próprio Filho de Deus, o Senhor Jesus – continuou o Papa – fez a experiência do cárcere, foi submetido a um julgamento diante de um tribunal e padeceu a mais feroz condenação, a pena de morte. Recordando a sua recente viagem ao Benin, durante a qual assinou a Exortação Apostólica Pós-sinodal Africae munus (O compromisso da África) o Santo Padre destacou um trecho do documento no qual reafirma a atenção da Igreja pela justiça nos Estados:

“É preciso também banir os casos de erro da justiça e os maus tratos aos prisioneiros, as numerosas ocasiões de não aplicação da lei, que correspondem a uma violação dos direitos humanos, e as detenções que só tardiamente ou nunca chegam a um processo. A Igreja reconhece a sua missão profética junto de quantos acabam envolvidos pela criminalidade, sabendo da sua necessidade de reconciliação, de justiça e de paz . Os presos são pessoas humanas que, apesar do seu crime, merecem ser tratadas com respeito e dignidade; precisam da nossa solicitude”. (n.83)

A justiça humana e a divina – continuou Bento XVI – são muito diversas. Certamente, os homens não são capazes de aplicar a justiça divina, mas devem pelo menos olhar para ela, procurar colher o espírito profundo que a anima, para que ilumine também a justiça humana, para evitar – como ocorre certas vezes – que o preso se torne um excluído. Deus, de fato, é Aquele que proclama a justiça com força, mas que, ao mesmo tempo, cura as feridas com o bálsamo da misericórdia.

Justiça e misericórdia, justiça e caridade, preceitos da doutrina social da Igreja, são duas realidades diferentes somente para nós homens - disse ainda o Papa -, que distinguimos atentamente um ato justo de um ato de amor.

“Justo para nós é “o que é devido ao outro”, enquanto misericordioso é o que é doado por bondade. E uma coisa parece excluir a outra. Mas para Deus não é assim: n’Ele justiça e caridade coincidem; não há uma ação justa que não seja também ato de misericórdia e de perdão e, ao mesmo tempo, não existe uma ação misericórdiosa que não seja perfeitamente justa”.

Quão longe é a lógica de Deus da nossa! – sublinhou o Papa. E como é diferente do nosso modo o seu modo de agir! O Senhor nos convida a colher e observar o verdadeiro espírito da lei, para lhe dar pleno cumprimento no amor para aqueles que necessitam. “Pleno cumprimento da lei é o amor", escreve São Paulo: a nossa justiça será mais perfeita, se animada pelo amor a Deus e ao próximo.

O Papa destacou em seguida que o sistema de detenção gira em torno de dois pontos principais, ambos importantes: por um lado, proteger a sociedade contra eventuais ameaças, de outro reintegrar quem errou, sem pisotear a dignidade e excluí-lo da vida social. Ambos os aspectos têm a sua relevância e não devem criar um "abismo" entre a realidade na prisão e aquela pensada pela lei, que prevê como um elemento chave a função reeducadora da pena e o respeito dos direitos e da dignidade das pessoas. A vida humana pertence somente a Deus, que nos deu, e não é abandonada à mercê de ninguém, nem mesmo ao nosso livre arbítrio! Somos chamados a preservar a pérola preciosa da nossa vida e a dos outros.

O Papa sublinhou ainda que a superlotação e a degradação das prisões podem tornar ainda mais amarga a detenção: recebi várias cartas de presos que sublinham isso. É importante que as instituições promovam uma cuidadosa análise da situação da prisão hoje, verifiquem as estruturas, os recursos, o pessoal, de modo que os prisioneiros não cumpram jamais "uma dupla pena"; é importante promover um desenvolvimento do sistema carcerário, que respeitando a justiça, seja cada vez mais adequado às necessidades da pessoa humana, com a utilização também de penas não detentivas ou a modalidades diferentes de detenção.

O Papa conclui suas palavras recordando que celebramos o quarto domingo do tempo de Advento. O Natal do Senhor está próximo, e fez votos de que reacenda de esperança e de amor os corações. O Menino de Belém será feliz quando todos os homens retornarem a Deus com o coração renovado. “Vamos pedir-lhe no silêncio e na oração sermos todos liberados da prisão do pecado, da soberba e do orgulho; cada um tem necessidade de sair desta prisão interior para ser verdadeiramente livre do mal, das angústias e da morte. Somente aquele Menino deitado na manjedoura é capaz de doar a todos essa plena libertação!.

O Papa concluiu dizendo que a Igreja apoia e encoraja todos os esforços para garantir a todos uma vida digna e que está próxima a cada um deles, às suas famílias, aos seus filhos, aos seus jovens, aos seus anciãos e todos leva no coração diante de Deus. (SP)

Roma, 18 de Dezembro de 2011.

07 junho 2011

A Perseguição aos Cristãos nos dias atuais

Na Conferência Internacional sobre o Diálogo Inter-religioso entre Cristãos, Judeus e Muçulmanos, realizada no último 3 de junho em Budapeste, o representante da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) e perito em temas de liberdade religiosa, Massimo Introvigne, afirmou que a cada ano 105 mil pessoas são assassinados por sua fé cristã. “A cada cinco minutos morre um cristão por causa da sua fé”, alertou o sociólogo italiano.

No evento, organizado pelo governo da Hungria, participaram também outras autoridades religiosas e civis como o diplomata egípcio, Aly Mahmoud, quem afirmou que no seu país, onde estão sendo registrados gravíssimos ataques contra as Igrejas Coptas, serão promulgadas leis que proibirão os imãs muçulmanos de realizar discursos incitando ao ódio e as manifestações hostis junto aos templos das minorias, especialmente a cristã.

“Se essas cifras não gritarem ao mundo, se não se detiver esta praga, se não se reconhecer que a perseguição dos cristãos é a primeira emergência mundial em matéria de violência e de discriminação religiosa, o diálogo entre religiões só produzirá congressos estupendos, mas nenhum resultado concreto”, afirmou Introvigne no seu discurso.

O Arcebispo de Budapeste, cardeal Peter Erdö, também presente na Conferência alertou para o fato que muitas comunidades cristãs no Oriente Médio morrerão porque terão que fugir de lá. “Que a Europa se prepare para uma nova onda imigratória, desta vez de cristãos que fogem da perseguição”, advertiu.

Segundo o boletim italiano pró-vida INFOVITAE, outro fato lamentável é que pelo menos um milhão dos cristãos perseguidos no mundo são crianças. (SP)

Fonte: Radio Vaticana

01 novembro 2010

Os cristãos e a política*

Um dos equívocos da intelectualidade moderna foi imaginar que poderia transformar a religião numa questão privada, numa prática quase doméstica, num conjunto de valores dos quais as pessoas teriam vergonha de dizer que tem vínculo. Para forçar essa situação, largas faixas dos iluministas criaram o mito de que religião era sinônimo de ignorância, obscurantismo, superstição. Espalharam a mentira de que o cristianismo (o grande objeto da ira deles) era avesso à razão e que quanto mais rápida e profundamente nos livrássemos de sua influência, mais alcançaríamos a maioridade ética, intelectual, estética, política.

Ainda hoje, quem lê o material didático da esmagadora maioria das nossas escolas pode observar que a religião cristã é retratada da pior maneira possível. Inimiga da ciência e perseguidora implacável, são duas características obsessivamente repetidas pelos subprodutos do iluminismo na sala de aula. As pesquisas sobre o tema de autores como Jacques Le Goff, Paul Johnson, Michael Novak, Thomas Woods e tantos outros jamais chegam ao ambiente escolar brasileiro, o que só contribui para que continuemos nas trevas.

O fato é que dois séculos depois, os cristãos continuam, mesmo que de forma variada, atentos ao que acontece nas suas comunidades nacionais. E não poderia deixar de ser assim, pois os preceitos do cristianismo compreendem a história como âmbito no qual os fiéis buscarão a salvação. Sabemos que as igrejas cristãs acreditam que sua principal missão é a salvação eterna dos homens. Essa missão, porém, tem início já neste mundo, através de ações que visem a conformar os homens ao espírito do evangelho. Por isso, sua missão evangelizadora exige das comunidades cristãs uma preocupação com o meio no qual o homem está inserido. A missão espiritual dos cristãos exige deles uma solicitude social para com o homem, ou seja, à sua missão salvífica corresponde, necessariamente, uma missão temporal de libertação e humanização, uma vez que o ser humano não é um ser isolado, mas aberto à relação com os outros, ou seja, é, por natureza, um ser social. Nesse sentido, a ação cristã no espaço público é condição para o exercício pleno da fé.

Períodos eleitorais são especialmente importantes para os cristãos, pois a experiência internacional ao longo do século XX já mostrou que quanto mais afastados eles ficam da política mais abrem espaços para aqueles que desejam silenciá-los e atacar a sua base de valores. Um argumento muito comum aos seus inimigos é aquele que afirma que o Estado é laico e que não devemos misturar religião e política. Ora, é claro que o Estado é laico e que deve continuar sendo. Mas, isso não significa que os debates públicos que estruturam esse mesmo Estado possam excluir da discussão, no caso brasileiro, mais de 90% da população. Também seria apostar na esquizofrenia, como padrão de conduta, exigir que o cidadão seja cristão dentro de casa e do templo e seja outra pessoa na hora de se posicionar no espaço público.

Não, senhores. Todos nós, cristãos ou não, devemos participar do debate com a totalidade dos nossos valores (éticos, estéticos, religiosos, políticos, ideológicos) e não adianta insinuar que nesse debate os pressupostos religiosos são inferiores aos não religiosos, pois isso é desonestidade ou ignorância. O debate público é feito, sim, de racionalidade (e isso os cristãos têm de sobra, pois são dois mil anos de muita reflexão intelectual), mas não se limita a isso.

Os países mais prósperos e livres do mundo têm populações compostas por amplas maiorias cristãs, o que significa que as afinidades entre cristianismo e modernidade podem ser colocadas a serviço do bem comum. No caso brasileiro, ao contrário do que afirmam seus detratores, a ação dos cristãos é absolutamente necessária para combater o autoritarismo crescente e as tentativas de implantação de uma cultura de morte no país. Os verdadeiros cristãos não podem fugir desse tipo de combate, sob pena de voltarem a desenhar peixes na areia, como quando eram perseguidos no mundo antigo.


*Por Rodorval Ramalho, extraído do site Cinform.com.br.

30 outubro 2010

Política e Fé se tocam

Cidade do Vaticano, 30 out (RV) - Os brasileiros retornam às urnas neste fim de semana para o segundo turno das eleições que determinarão quem será o próximo presidente do Brasil e em alguns Estados o governador.

Uma campanha eleitoral longa, difícil e em muitos casos demais de agressiva. Agora chegou o momento decisivo, e o povo brasileiro é chamado a dar a sua resposta a tantas indagações, a tantas perguntas que ainda não tiveram respostas. Quem será o novo líder do Brasil? O Brasil mudará, crescerá ainda mais? O pobre terá o seu lugar em uma sociedade onde a economia cresce a olhos vistos? A dignidade da pessoa será o centro da atenção das novas políticas? A religião continuará a cumprir com o seu papel, ou continuará, como em muitos casos, vista como algo individual e não coletivo.

Política e fé se tocam, reafirmou nesta semana o Papa Bento XVI no seu discurso aos bispos do Regional Nordeste 5 da CNBB, quase reafirmando a posição tomada nos meses passados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que através de sua Presidência, sublinhou que a mesma “não indica nenhum candidato, e que a escolha é um ato livre e consciente de cada cidadão”. Diante de tão grande responsabilidade, exortou os fiéis católicos a terem presentes critérios éticos, entre os quais se incluem especialmente o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana.

O Papa, como representante de Cristo, fez presente aos nossos ouvidos a frase do Senhor “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. No seu discurso aos bispos brasileiros Bento XVI deixou claro que a missão da política, como significa o próprio termo, é cuidar das coisas terrenas, da Cidade dos Homens, como dizia Santo Agostinho, mas, ao mesmo tempo, tendo consciência de que esse cuidar deve ter como orientação a dimensão espiritual do Homem sua pertença a Deus. Por isso, principalmente nesta véspera de eleições, o espiritual deverá iluminar a consciência que, guiada pelos princípios cristãos, elegerá quem conduzirá a Pátria nos próximos anos.

Concluímos com as palavras do Santo Padre que confiou a Nossa Senhora Aparecida, os anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres do nosso país. (SP)

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