30 outubro 2010

Política e Fé se tocam

Cidade do Vaticano, 30 out (RV) - Os brasileiros retornam às urnas neste fim de semana para o segundo turno das eleições que determinarão quem será o próximo presidente do Brasil e em alguns Estados o governador.

Uma campanha eleitoral longa, difícil e em muitos casos demais de agressiva. Agora chegou o momento decisivo, e o povo brasileiro é chamado a dar a sua resposta a tantas indagações, a tantas perguntas que ainda não tiveram respostas. Quem será o novo líder do Brasil? O Brasil mudará, crescerá ainda mais? O pobre terá o seu lugar em uma sociedade onde a economia cresce a olhos vistos? A dignidade da pessoa será o centro da atenção das novas políticas? A religião continuará a cumprir com o seu papel, ou continuará, como em muitos casos, vista como algo individual e não coletivo.

Política e fé se tocam, reafirmou nesta semana o Papa Bento XVI no seu discurso aos bispos do Regional Nordeste 5 da CNBB, quase reafirmando a posição tomada nos meses passados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que através de sua Presidência, sublinhou que a mesma “não indica nenhum candidato, e que a escolha é um ato livre e consciente de cada cidadão”. Diante de tão grande responsabilidade, exortou os fiéis católicos a terem presentes critérios éticos, entre os quais se incluem especialmente o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana.

O Papa, como representante de Cristo, fez presente aos nossos ouvidos a frase do Senhor “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. No seu discurso aos bispos brasileiros Bento XVI deixou claro que a missão da política, como significa o próprio termo, é cuidar das coisas terrenas, da Cidade dos Homens, como dizia Santo Agostinho, mas, ao mesmo tempo, tendo consciência de que esse cuidar deve ter como orientação a dimensão espiritual do Homem sua pertença a Deus. Por isso, principalmente nesta véspera de eleições, o espiritual deverá iluminar a consciência que, guiada pelos princípios cristãos, elegerá quem conduzirá a Pátria nos próximos anos.

Concluímos com as palavras do Santo Padre que confiou a Nossa Senhora Aparecida, os anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres do nosso país. (SP)

29 outubro 2010

Defender os valores fundamentais, um ato democrático.

Segue na íntegra o discurso do Papa aos bispos do Regional Nordeste 5 (formado pelo Estado do Maranhão), em visita ad Limina, recebidos esta manhã, no Vaticano.


Amados Irmãos no Episcopado,

«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. GS, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o "Compêndio da Doutrina Social da Igreja"» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75).
Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade.

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.
 
fonte: www.vatican.va

25 outubro 2010

O Roubo do Infinito

Por esses dias tive acesso a um texto de Mario Quintana sobre o aborto que muito me chamou a atenção, principalmente uma frase em especial. Dizia ele: "O aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo... Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo. O aborto é o roubo infinito".
Roubar o infinito é extremamente conflitante, pois, tirar o que é eterno é tomar para si os poderes de Deus, é fazer-se soberano, é colocar-se numa condição de superioridade a todo criado. Quando nos permitimos isso perdemos o senso do humano, e entramos num processo de plena discordância com o que somos e com o que aquilo que queremos. Ouvimos das pessoas em geral os mais sinceros sentimentos de se bem estar, de solidariedade, de que as pessoas sejam felizes... porém comungar com idéias abortistas é a mais pura hiprocrisia, pois tudo de bom que foi cultivado pelas palavras de bem estar, torna-se vazia nas atitudes e idéias que comungam com a morte.
Vamos permitir a vida florescer ao invéns de nos tornarmos ladrões e ladras de infinitos... vamos permitir que a vida se faça vida... vamos permitir que o ser seja em plenitude de vida, pois como disse Fernando Sabino: Matar não é tão grave como impedir que alguém nasça, tirar a sua única oportunidade de ser. O aborto é o mais horrendo e abjeto dos crimes. Nada mais terrível do que não ter nascido!

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